Poesia

Culpados e vilões

O mundo gira.
A vida roda.

E, nesse mundo,
que gira pulsante,
em todo instante
se espera de tudo
procurando o nada.

Mas ...

e se algo acontece,
e sai tudo errado,
quem é o culpado,
quem é o vilão ?

De quem é a culpa
se nada dá certo ?

De quem é a culpa
se tudo é errado ?

De quem é a culpa
se, apesar de tudo,
o mundo ainda gira
e os pensamentos
junto co´ele vão ?

Quem é o culpado,
quem é o vilão ?

É o papagaio,
ou mesmo um irmão ?

O tio, o sobrinho,
o gato, o cachorro
- cuidado, que eu morro,
de inanição,
ou por inspiração.

Quem é o culpado ?

Quem é o vilão ?


Talvez, não exista um culpado,
pois não há vilões
no mundo de hoje.

Pois o que existem
são novas visões
de um novo mundo
que aqui ficou.

Quem é o culpado ? Ninguém.

Quem é o vilão ? Não há mais nenhum.


fps, 11/12/95, 13:42

Poesia



Reflexões botequeiras

Enquanto um riso houver
o samba não vai parar.

E o boteco jamais vai fechar.

...

Botecos
são parte da vida;
tem alguém sempre entrando,
e outro saindo.

E, num boteco de esquina,
as coisas rolam, e andam, assim:

Tem o fulano,
que passa apressado,
e, de um gole só,
pede só um café.

Tem o beltrano,
que chega ao fim do dia,
e a pinga sadia
toma devagar.

E tem o pessoal
do horário do almoço;
das firmas, escolas,

que chega e que para,
e que pede o cardápio,
para comer bem.

E como, num boteco,
se come bem:
comercial, bife, picadinho ...

Humm ...

E tem os de sempre,
que a mesma hora chegam,
e pedem o de sempre:

o garoto, um picolé;
o boy quer um burgão;
e até um gaiato
quer um canapé ...

"Mas que canapé?
Aqui, num tem não".

E ao fim da noite
a dona da casa
fecha o expediente.

A não ser na sexta,
dia de festança;
sábados, talvez, um "chorinho".

E domingo, paramos,
que botecos dependem
de quem passa por eles.

Para depois começar,
na mesma labuta,

pois enquanto um riso houver,
o samba não vai parar,
o papo vai continuar,

e esse Boteco jamais fechará.

fps, 27/01/10, 10:45

O dia em que eu chorei (Homenagem a um grande amigo meu, que se foi)

Conheci Rovângelo há muito tempo atrás.

Cinco, seis, sete anos ... não importa.

O que importa era o tipo de pessoa que ele era: moreno, não muito alto nem muito baixo, de porte mediano, óculos - enfim, nada que lembrasse o tipo atlético, alto, forte e bonitão que povoa as revistas femininas, como exaltação do chamado "homem ideal" (muito músculo e pouco cérebro).

Aliás, dir-se-ia até que ele não era grande coisa assim, já que sua voz, meio esquisita, surda e estridente, anunciava um tipo de pessoa que não se vê muito nos dias de hoje: bonachão, carinhoso, sensível, às vezes até emotivo, mas com um certo traço de "charm", que as pessoas hoje parecem esquecer, nesses tempos corridos em que a dureza dos atos substitui a beleza da vida - não sem tristeza, nem mesmo sem dor.

Mas, como eu ia dizendo, conheci-o no colégio, por assim dizer no ginásio, que é, por definição, a época em que os espíritos se abrem, desabrochando em todos a personalidade que talvez terão em vida - ou, pelo menos, em sua juventude.

Era uma época que via surgir gente bonita, sedosa e cheirosa, alguns mais "zoeiros", outros nem tanto, e outros que nem sabem o que significa isso: os chamados "bitolados", ou "bitolas", para os quais o melhor companheiro é o livro, e a obrigação número um é passar de ano - e era nesses que eu me classificava, à base de TV de manhã, ônibus lotado à tarde e o carro do pai que vinha me buscar de noite, tudo ao mesmo tempo, sem contestação.

Nesses tempos, onde o que importava p´ra mim era ser um bom aluno, surgiam outros, raros como eu, que faziam valer os centavos que os pais investiam, ainda que custasse menos ser irresponsável e idiota - como tantas donas de butique de hoje já foram um dia.

No entanto, isso não importa mais, já que o velho e bom amigo Rovângelo, aquele cara que falava fino, aquele que parecia "delicado", aquele mesmo que um dia jurara namorar a professora de Educação Artística - nossa "professora Helena" dos tempos de ginásio - aquele cara com um jeito todo especial de ser, e de cativar, que só ele tem ... tinha, pois morreu há poucos dias atrás, vítima do imponderável e do impensável que circula, todo dia, entre nós.

Como estaria ele hoje ? Voz diferente ?

Estaria mais alto ?

Mais gordo, talvez ?

Não sei, não posso explicar, pois não cheguei a vê-lo de novo.

A única coisa que sei - e que pude lembrar, quando soube da notícia - foi da última vez que nos vimos, na nossa formatura, quando o abracei e tiramos uma foto lá dentro do colégio.

Foi a última foto que tirei com qualquer pessoa que conheci no ginásio, e foi por isso que, quando lembrei-me do fato, ao voltar para casa, tendo a consciência de que uma parte de mim havia também ido, uma boa parte, dos bons tempos em que podia viver e sonhar, tornando se homem nas esquinas da vida, e do quanto ela havia sido boa , e do amigo que eu tinha perdido ali ...

... foi aí que, sem nada p´ra dizer, simplesmente chorei.

fps, 31/05/96, 15:44

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